O Carteiro e o Poeta“Aqui na ilha há tanto mar,
O mar e mais o mar.
Ele transborda de tempo em tempo.
Diz que sim, depois que não,
Diz sim e de novo não.
No azul, na espuma, em galope
Ele diz não e novamente sim.
Não fica tranqüilo, não consegue parar.
Meu nome é mar ele repete
Batendo numa pedra, mas sem convencê-la.
Depois com as sete línguas verdes
De sete tigres verdes, de sete cães verdes,
De sete mares verdes
Ele a acaricia, a beija e a umedece;
E escorre em seu peito
Repetindo seu próprio nome”.
O filme “O carteiro e o poeta” conta sobre a amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e Mario Ruopollo um carteiro italiano, uma amizade transformadora entre dois homens separados por diferenças, a partir de um diálogo mediado pela poesia.
Mario é filho de pescador, que habita um mundo limitado e sem perspectivas e está submetido a permanentes aconselhamentos do pai por não trabalhar. Sua rotina sucede-se entre a atividade de rodar pela ilha, preparar as refeições do pai, e ir ao cinema local, onde assiste a filmes que ampliam os limites de seu espaço geográfico, do conhecimento e do sonho. Sem interlocutores, desenvolve sua vida interior e sua sensibilidade no contato com esse mundo mágico onde realidade e ilusão se completam .
Essa situação muda quando se depara com um anúncio na agência local de correios oferecendo uma vaga de carteiro. O emprego, que exige que o candidato tenha uma bicicleta, é para entrega de correspondência a um novo morador do alto da ilha e implica o percurso de uma longa distância. O salário semanal, conforme palavras do chefe da agência, mal dá para um ingresso no cinema. Mário aceita as condições com alegria de ser o carteiro do poeta chileno Pablo Neruda, refugiado político na ilha.
E nessa ligação entre poeta e carteiro acontece um verdadeiro processo pedagógico, a aprendizagem de Mario Ruopollo deu-se a partir da sua inquietude em relação à vida que levava na ilha onde morava e na busca pelo conhecimento inicia-se um processo de individualização do Mário, que começa a compreender a si mesmo, a desenvolver seus potenciais.
Mário se esquiva ao cotidiano pesado e alienante da miséria e da mesmice. Ele se preserva não assumindo seu destino de pescador. Sonha, idealiza, sabe-se tosco, mas não incapaz de ver além. E a curiosidade deste jovem levou Neruda a lhe mostrar a magia das palavras, e um dos primeiros ensinamentos aconteceu quando o poeta explica o que é uma metáfora, esta por sua vez aparece como eixo sobre o qual se constrói a história. Constitui uma forte marca de Neruda e motivo de curiosidade para o carteiro que quer saber "o que é". À compreensão, reage com estranheza por uma coisa tão simples ler um nome tão complicado.
A partir da descoberta de Mário, a palavra metáfora passa a circular nos diálogos e constituir o modo de construção do texto.
Essa história não tem nada de trágico, pelo contrário, é cheia de bom humor, leve, lírica, envolvente. Mário cria situações agradáveis como no momento em que contesta o poeta afirmando que se ele não é capaz de escrever um poema para Beatrice (objeto de sua paixão), como pode esperar que lhe dêem o Prêmio Nobel? Ou quando põe em xeque o poeta perguntando-lhe se todas as coisas do mundo podem ser metáforas.
O que torna fascinante a história é sua capacidade de mostrar escondendo e esconder mostrando, num jogo em que a subjetividade do autor atua no sentido da objetividade que é atingida via transformações lingüísticas: a prosa se enche de poesia, como o ser passa do estado bruto ao mais puro estado sensível de humanidade plena. É ao ser sensível que existe em nós.
“E foi naquela Época...
A poesia chegou me procurando.
Eu não sei, não sei de onde ela veio,
se de um inverno ou de um rio.
Eu não sei como nem quando.
Não, não eram vozes,
não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua eu fui chamado abruptamente
dos ramos da noite, dos outros,
no meio de um tiroteio violento,
e num retorno solitário lá estava eu
sem um rosto... e ela me tocou.”